A Casca da Árvore
Desligo o telefone e as lágrimas vertem de forma descontrolada. Desligo-me do mundo e não consigo pensar em outra coisa. É difícil acreditar que meu velho amigo Flávio acabou de falecer. Sua mulher, ainda chocada, avisara-me que faziam três dias do seu enterro, mas que apenas agora teve tempo de me contar. Queria ter podido ir ao funeral. Levanto e caminho até a porta de entrada do escritório e a tranco. Ainda sem poder segurar o choro, bebo um copo d’água e deito no chão.
Lembro de nossa adolescência, onde sentávamos à beira de uma velha árvore, um Chorão que ficava em uma Praça de Santa Maria. Era lá que conversávamos sobre os planos do futuro. Foi na sombra daquela árvore que eu, Flávio e Lucio decidimos coisas importantes como nossas profissões. Esta árvore havia sido testemunha do nascimento de nossos sonhos que, talvez, muitos deles não tenhamos conseguido colocar na prática. Infelizmente Lucio já havia falecido fazia um bom tempo.
No último natal, quando viajei para o Rio Grande do Sul, visitei em Porto Alegre meu amigo Flávio. Foi inquietante perceber que mesmo após 30 anos a amizade continuava a mesma. A impressão era de que aquele encontro proporcionava com que nossas almas voltassem a ter a juventude de antes. Saí de lá renovado. Porém, antes de ir embora, entreguei para Flávio uma casca da árvore que vivenciou em conjunto nossas experiências. Flávio ficou emocionado com o singelo presente. Suas lágrimas que me disseram. Tive esta idéia quando visitei meu pai, pouco antes de ir para Porto Alegre. Arranquei três pedaços da árvore. Decidi entregar para meus amigos que compartilharam esta etapa da vida. Logo, entreguei um para Flávio e outro para a filha de Lucio. Outro ficou comigo.
Na conversa que tive a pouco pelo telefone, fui informado de que Flávio, quando começou a piorar, pediu para segurar a casca de árvore que eu havia dado. A piora foi tão repentina que logo o carregou para longe de nós. Seu último pedido foi ser enterrado com a casca. E assim foi feito. Como quantificar o significado deste ato? Uma amizade de verdade possui uma raiz igual a daquela famosa árvore. Quem tem uma amizade como esta sabe do que estou falando. Sinto-me culpado por não ter valorizado mais este grande amigo que conseguiu eternizar a nossa amizade. A linha que existe entre conhecidos e amigos é substancial. Então meu amigo, se você só tem conhecidos, sinto muito te dizer, tudo isso que te digo, mas você não entendeu nada do que aconteceu por aqui.
14/02/2011
Obs.: Apenas os nomes desta história são fictícios
fevereiro 14, 2011 às 8:42 pm
Érico, lindas raízes!!
Grata pelo sentimento casca no dia de hoje!
Um abraço!