A Saudade de um Nascer
E tirando o peso da via láctea de minhas costas o médico afirma que não é câncer. Respiro aliviado. Há alguns meses havia encontrado um caroço no pescoço que definitivamente estava me impedindo de ter uma boa noite de sono. Não por seu tamanho, mas pela possibilidade de ser algo grave. Quando indago sobre a chance daquela bolinha se tornar câncer o médico diz: “O que é câncer já nasce câncer”. Frase que acaba ficando marcada. Despeço-me e vou para a sala de espera. Pego um copo d’água e sinto cheiro de detergente no copo. Desisto e vou em direção ao carro. Ligo o som com um sorriso estampado e vou embora.
Eu realmente achei que dessa não escaparia. De certa forma já havia bloqueado planos futuros bem como qualquer possibilidade de correr atrás de meu desejo. Justamente por acreditar que não teria sentido. Uma possível doença havia tomado todo o espaço. Agora me deparo com a necessidade de retomar tudo isto novamente. Preciso fazer com que as roldanas da vida voltem a se movimentar. Algo que inclui trabalho, amigos, família, música e amor. Amor? O velho pessimismo salta aos olhos como em um trem fantasma me fazendo engolir o ingênuo sorriso de antes. Não o trem fantasma da Expobel, claro.
Estaciono e vejo que tenho tempo de sobra antes de começar a trabalhar. Decido alugar um filme. Entro na locadora e procuro por algo que me faça desligar. Sinto que meu desânimo se deve ao fracasso constante no amor. A velha mãe preguiça abana de longe. Lembro do que o médico falou: aquilo que é já nasce como tal. Será que tenho tentado transformar em amor aquilo que nem se parece com ele? Olho para trás com certo receio e comprovo que sim, cometi o erro de ficar esperando que uma planta pudesse nascer no meio do asfalto. E o pior é que nestas tentativas acabei trazendo sofrimento não só para mim, mas para quem compartilhou a espera.
O raciocínio se vai quando ouço a guria da locadora desqualificar o filme “Death Proof” e sugerir “Mamma Mia!” para um cliente. Sugestões de locadora deveriam ser proibidas. Opto por Scott Pilgrin e me retiro do local. Ao pisar novamente sobre os paralelepípedos me vem a lembrança como os sentimentos mais sinceros surgiram no passado. Fico pasmo por ser tão tardia a compreensão de que o amor só é amor quando nasce como tal. Exceto em Friends, que não conta. E o pior é que esta associação só foi possível com uma comparação ao câncer. Amor e câncer? Bem, se considerarmos o fato de nascer como tal e que é algo difícil de superar quando acaba, temos uma boa analogia.
Atravesso a rua para entrar no elevador. A dúvida agora não é a de como reconhecer o amor quando ele surge, mas sim, esmiuçar o que propicia o tal surgimento. Enxergo-me no espelho do elevador. Será que procuro alguém semelhante a mim? Não, isso não. Acredito que é preciso procurar alguém que tenha algumas semelhanças, algumas afinidades e não alguém idêntico. Deve existir um ponto chave, algo essencial do encaixe. Sento em minha cadeira e ao tentar pensar em nada sinto saudade dos meus pensamentos. Saudade de um pensar parecido? De alguém que pense como eu? O interfone toca.
22/03/2011
março 28, 2011 às 2:19 am
Parabéns érico, seus textos são mto bons! =)