Juarez Tinha Medo de Gozar
Juarez encontrava-se cada vez mais só. Mesmo quando percebia seu celular vibrar, apenas ficava lendo “mãe” repetidamente. Não queria atender. Acabou isolando-se na esperança de não precisar falar sobre o que acontecia com ele. O medo de um dia revelar tal segredo era devastador. Preferia se encolher buscando o mínimo de abalo em sua mente. No trabalho só falava quando alguém puxava conversa, senão ficava imóvel e mudo apenas calculando o imposto de renda de desconhecidos.
Tornou-se rotina chegar em casa após o trabalho e sentar na sacada do seu prédio, já surrado pelo tempo. Aprendeu a reservar um espaço para tentar organizar as idéias e descobrir onde tudo começou. Busca incessante que parece não ter fim. Por vezes, desiste devido ao barulho de um obeso vizinho no apartamento ao lado que joga Guitar Hero todos os dias. Em outros momentos apenas adormece em sua cadeira de praia que nunca viu o mar.
Em um destes devaneios conseguiu relembrar a primeira vez que tal sentimento o invadiu. Foi com sua segunda namorada. Recordou que na primeira vez que foram fazer sexo, após 2 meses de espera, ao finalizar o ato sentiu um vazio muito grande; comparável a um buraco negro. Achou que ia perder o controle. Sentiu a realidade da miséria psíquica acertar-lhe no rosto como uma tijolada. Aquela sensação de estarmos totalmente sozinhos, que é praticamente ignorada por todos, nunca foi tão palpável. Sentiu vontade de correr, mas ficou ali ao lado dela, como se nada estivesse acontecendo.
Após sentir o vazio correr por suas veias, Juarez começou a ter receio de que pudesse acontecer novamente. E aconteceu. Toda vez que ele se rendia aos prazeres carnais acabava sendo submetido a uma experiência que o fazia desejar não ter descoberto a sexualidade. Ficava olhando para o teto, ou para seu reflexo, sentindo que na verdade tudo o que se sentia e fazia não passava de uma peça teatral dirigida por ninguém. Em uma ficção onde uns acreditam que são padeiros ou juízes, Juarez sabia que esta maquiagem que servia para cobrir as cicatrizes da realidade não passava de um engodo. Não o convencia mais.
Decidido a dar uma nova chance para sua vida, Juarez liga para a ex-namorada e a convida para sair. Ela aceita. Após todo o ritual que precede seu maior medo, como um jantar ou cinema, o casal encontrava-se em um simplório motel da cidade. Já fazia dois anos que uma nova tentativa não era colocada em prática. Mesmo sem ter feito nada que pudesse promover uma melhora, acreditava que após tanto tempo algo poderia ter mudado. Porém, após gozar, sentiu novamente seu sangue se transformar em areia de deserto. Antes fosse areia de praia, pensou. Iluminado apenas por luzes vermelhas e verdes sentiu mais uma vez que não gostava de ninguém.
Visualizou a impossibilidade de gostar e amar alguém que acredita nisso tudo que está em vigor. Juarez conseguiu perceber que todos, sem exceção, dançam a mesma música, menos ele, que tinha medo de gozar. Porém, concomitante com a dor, uma nova idéia emergiu sem precedentes. Pensou que sua única solução seria iniciar uma busca. É preciso encontrar alguém que compartilhasse a mesma visão, a mesma percepção. A cura de seu medo seria alguém que pensasse como ele. Ao virar para o lado, percebeu que sua ex-namorada conseguia dormir. Ou seja, estava acomodada neste mundo de mentira. Percebendo que não era isto que buscava, levantou-se e foi embora a pé.
30/01/2011