O Tempo Para Sim
Nunca escrevi meu nome em uma caneta. Em locais de trabalho pessoas tem esse costume. A caneta se torna um objeto de cobiça ou poder. De quem é a caneta? Tanto faz. Se quiser sacanear, é só roubar a caneta de alguém. Algumas até ficam amarradas em um barbante. Se pelo menos o computador conectasse na rede wireless que fica apitando ali no canto. O som que toca na sala ao lado eu não consigo identificar, mas não é uma boa música. Dificilmente o que toca em rádios pode ser considerado bom. Lembro de uma amiga que ontem disse não entender porque me preocupo tanto com o gosto musical de quem penso conhecer. Mal sabe ela da importância disso aqui dentro.
Cazuza pensaria duas vezes antes de falar que o tempo não para se trabalhasse aqui. Já o cara que escreveu Peter Pan certamente conhece o lugar. A parte boa de ser funcionário público é que, deu 17h30, tu larga o que está fazendo e vai embora. Vejo amigos que levam problemas do trabalho para casa. Eu não, meu único problema é o tempo que não passa. E a angústia. Ela eu levo junto também. Levanto a cabeça e contabilizo 4 funcionários jogando paciência spider e um jogando pinball. Prefiro a hipnose dos ponteiros. Eles chegam onde quero. Lembro o Forrest Gump de tão rápido que saio lá de dentro.
Chego em minha casa e em menos de 15 segundos já estou só de bermuda. Sento em meu sofá que abriga uma colônia de baratas em seu interior e ligo a televisão. Malhação era mais interessante na época da Joana. Abro a lata de Sprite que comprei no caminho e percebo que já esquentou. Sentado sem fazer nada, olho para a televisão. Então olho para o copo e depois para o chão, que está muito sujo. Percebo que estou sozinho. Seguro minha cabeça na tentativa de segurar a angústia que me invade como fez Neo para matar Smith. O pior de tudo é que sei porque ela aparece. Ela vem para me lembrar que preciso de objetivos. Preciso de algo para lutar, algo para almejar. Não é coincidência ela aparecer justamente quando preciso ficar comigo mesmo. A cabeça baixa tem me deixado cada vez mais próximo do chão.
Parece que arranjei uma nova amiga. Ela me acompanha durante o trabalho, querendo ir embora para casa. Quando chego em casa, parece que senta ao meu lado e fica sussurrando em meu ouvido que não posso ficar sem pensar. Seria um luxo mesmo, desligar-me alguns minutos. O pior de tudo é perceber que ela, a amiga angústia, fica incomodando a semana toda esperando chegar sábado e domingo. Mas e quando os tais dias chegam o que acontece? Nada. Porque não tenho nada para fazer. E então ela sente-se humana e começa fazer uso do meu velho sofá. Não parece importar-se com o cheiro das baratas. Fica ali, me olhando.
Hoje é quinta-feira. Falta um dia para o final de semana. Acho que vou fazer uma festa com todos meus amigos. O bom é que não preciso nem convidar. Estão sempre aqui: a angústia, as baratas, a preguiça e claro, meu melhor amigo, o chão.
07/04/2011