Juarez nasceu para quê?

Lá estava Juarez em mais uma festa do seu departamento. Segurava um copo de cerveja enquanto assistia os comentários sobre coisas corriqueiras do trabalho. Impressionava-se sobre como todos só falavam sobre trabalho. Ele queria falar de outras coisas, porém, seus únicos conhecidos eram pessoas de lá. Subitamente uma música diferente começa a tocar. “Born to be Wild” interrompe a sequência das músicas insossas dos anos 80. Para Juarez, o rock brasileiro desta época poderia ter ficado por casa, sem problemas.

Por culpa da música, ficou se questionando a respeito de propósitos. Nascido para quê? Perguntou-se. Ser selvagem é que não foi. Olhou para os amigos e entendeu que alguns nascem para serem figurantes. Quem se importa com alguém que trabalha numa loja de materiais de construção? Ninguém. Nascido para não ser marcante. Sua radicalidade às vezes o assustava. Sentou em frente à televisão, pois suas pernas já estavam doendo. Juarez não gostava das novas sensações que a idade estava trazendo.

Sua cerveja terminou. Nascido para que mesmo? Na televisão percebe que a criatividade anda em baixa. Uma propaganda da Oi onde um nenê fala algo que está no jornal mostra que tal empresa trocou de agência publicitária. Logo em seguida, decide que jamais fará o desafio Harpic. Nascido para ser sem graça. Levanta para pegar mais uma lata. Encontra Rosana, seu amor platônico de sete anos. Cumprimenta meio sem graça. Ela mais uma vez demonstra com o olhar que ele deveria tentar algo. Porém, Juarez segue seu caminho para o freezer. Nascido para ser cagão.

Vai para a sacada. Aproveita que os fumantes estão fazendo qualquer outra coisa. Olha para o movimento dos carros e se pergunta se um dia conseguirá comprar um. Nascido para ser pobre. Toma a cerveja de forma amorosa, tenta aproveitar cada gota. Olha para dentro do apartamento e não vê ninguém com quem poderia iniciar uma conversa interessante. Lembra que neste exato momento está passando Cilada no Multishow. Deseja estar em casa. Relembra que em sua casa ninguém o espera. Só a televisão. Ninguém nunca o espera. Percebe que ninguém o esperava para esta festa. Decide ir embora. Atravessa a sala e sai. Ninguém percebe. Encosta-se na parada de ônibus. Percebe que o sereno o deixará gripado. Olha para seus pés e afirma: Nascido para ser sozinho.

19/06/2011

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